O Militar Marxista: Nelson Werneck Sodré e o Sonho da Burguesia Nacional
- Yasmin Manzine
- 25 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Quando pensamos em marxismo no Brasil, logo imaginamos intelectuais da USP ou líderes sindicais. Mas e se eu te dissesse que um dos maiores teóricos da esquerda brasileira vestia farda verde-oliva?
Nelson Werneck Sodré (1911–1999) é uma figura única na nossa história: um oficial do Exército que escreveu mais de 60 livros tentando explicar o Brasil pela ótica do materialismo histórico. Ele foi o grande rival intelectual de Caio Prado Júnior e, embora a história tenha “dado razão” a Caio, estudar Sodré é essencial para entender o Brasil dos anos 50 e o golpe de 1964.
Neste artigo, vamos entender como um militar se tornou comunista e por que ele acreditava que o Brasil precisava superar o “feudalismo”.

Um Militar na Esquerda? O Contexto Histórico
Para entender Sodré, precisamos desconstruir a imagem do Exército pós-64. Antes do golpe, a caserna não era um bloco monolítico conservador. Havia uma forte tradição nacionalista e crítica, especialmente entre as baixas patentes.
Essa tradição vinha de longe:
Guerra do Paraguai: Soldados que voltaram questionando a escravidão.
Tenentismo (1922): A Revolta do Forte de Copacabana.
Coluna Prestes: A marcha pelo interior do Brasil liderada por Luís Carlos Prestes.
Sodré formou-se tenente em 1934, em meio a essa efervescência. Ele filiou-se ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) e, na década de 50, chegou a ser diretor cultural do Clube Militar, onde introduziu a leitura de Marx e Lênin para a formação de oficiais.
O Tempo Histórico: Heterocronia
Uma das sacadas geniais de Sodré foi perceber que o Brasil não vive todo no mesmo “tempo”. Ele usou dois conceitos para explicar isso:
Heterocronia: O desenvolvimento desigual entre países centrais (ricos) e periféricos.
Contemporaneidade do não coetâneo: A coexistência de tempos históricos diferentes no mesmo espaço.
Basicamente, no Brasil, você pode viajar no tempo apenas se deslocando no espaço. Ao sair da Avenida Faria Lima (tempo global, acelerado) e ir para o interior profundo do sertão (tempo agrário, lento), você atravessa séculos de desenvolvimento econômico.
A Polêmica do “Feudalismo Brasileiro”
Aqui reside o grande debate do pensamento social brasileiro. Enquanto Caio Prado Júnior dizia que o Brasil sempre foi capitalista (comercial), Nelson Werneck Sodré defendia a tese da Regressão Feudal.
Para Sodré, o fim da escravidão no século XIX não levou direto ao trabalho livre assalariado. Em muitas regiões isoladas e estagnadas, o Brasil regrediu para a servidão.
Sem mercado consumidor forte.
Relações de compadrio e favor.
O camponês preso à terra não por leis, mas pela miséria e dependência pessoal do latifundiário.
Para ele, esses eram “resquícios feudais” que precisavam ser destruídos.
A Estratégia: Aliança com a Burguesia Nacional
Se o Brasil tinha traços feudais e era explorado pelo Imperialismo, qual era a solução? Sodré e o PCB defendiam a Revolução Democrática Burguesa.
A lógica era a seguinte:
O Brasil precisa se industrializar e desenvolver o capitalismo plenamente.
Para isso, é preciso vencer dois inimigos: o Latifúndio (atraso interno) e o Imperialismo (exploração externa).
Quem pode fazer isso? Uma aliança entre o Proletariado (trabalhadores) e a Burguesia Nacional.
Sodré acreditava que existia uma burguesia brasileira patriótica, que queria lucrar com o mercado interno e, portanto, seria contra o imperialismo americano. Ele apostava todas as fichas nessa classe.
O Golpe de 1964: O Choque de Realidade
A teoria de Sodré foi testada na prática e, infelizmente, falhou tragicamente. O Golpe Militar de 1964 provou que:
A Burguesia Nacional não era nacionalista: Ela apoiou o golpe e preferiu se associar ao capital estrangeiro a se aliar aos trabalhadores.
O Imperialismo era mais forte do que se pensava: Não apenas economicamente, mas culturalmente (o “American Way of Life” já havia conquistado a mente da classe média).
Sodré, que foi um dos intelectuais do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e lutou pelas Reformas de Base, viu seu projeto ruir. O golpe mostrou que a burguesia brasileira tinha medo do povo e preferiu o autoritarismo.
Conclusão: Quem Venceu o Debate?
Historicamente, considera-se que Caio Prado Júnior venceu o debate. O Brasil não era feudal, e a burguesia não era revolucionária. O golpe de 64 não foi uma “interrupção” do progresso, mas sim a forma como a nossa burguesia escolheu se modernizar: com autoritarismo e exclusão.
Apesar do “erro” de diagnóstico, ler Nelson Werneck Sodré é fundamental para entender o nacionalismo de esquerda, a campanha “O Petróleo é Nosso” e a esperança de um Brasil soberano que marcou a geração de 50.



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