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O Brasileiro não é “Bonzinho”: Entenda o Homem Cordial de Sérgio Buarque de Holanda

  • Foto do escritor: Yasmin Manzine
    Yasmin Manzine
  • 4 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Se você estuda a sociedade brasileira, certamente já ouviu falar de Sérgio Buarque de Holanda (1902–1982). Historiador, crítico literário e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), ele é o autor de Raízes do Brasil (1936), um ensaio fundamental para entender quem somos.


Mas cuidado: a obra de Sérgio Buarque é cercada por um grande mal-entendido. Quando ele diz que o brasileiro é um “Homem Cordial”, ele não está dizendo que somos bondosos, educados ou pacíficos.


Imagem gerada por IA (Gemini) - O Brasileiro não é “Bonzinho”: Entenda o Homem Cordial de Sérgio Buarque de Holanda
Imagem gerada por IA (Gemini) - O Brasileiro não é “Bonzinho”: Entenda o Homem Cordial de Sérgio Buarque de Holanda

Neste artigo, vamos desvendar o pensamento desse autor que, influenciado por Max Weber, diagnosticou o nosso eterno conflito entre o público e o privado.


Quem foi Sérgio Buarque de Holanda?

Diferente de outros intelectuais de esquerda de sua época, Sérgio Buarque não era marxista ortodoxo. Ele é classificado como um social-democrata, um herdeiro do Iluminismo que sonhava com um Brasil moderno e racional.


Sua trajetória é marcada por:

  • Modernismo: Foi amigo de Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, participando ativamente da Semana de 22.

  • Influência Alemã: Viveu na Alemanha no final dos anos 20, onde bebeu direto da fonte da sociologia de Max Weber.

  • Política: Foi um crítico feroz da escravidão e das oligarquias. Encerrou sua carreira na USP em protesto contra a ditadura militar (AI-5) e ajudou a fundar o PT ao lado de Lula e Florestan Fernandes.


A Metodologia: O Tipo Ideal

Para entender Raízes do Brasil, precisamos entender uma ferramenta que Sérgio “pegou emprestada” de Max Weber: o Tipo Ideal.


O Tipo Ideal é como uma caricatura ou um exagero proposital. Ele não existe puro na realidade, mas é uma construção mental que ajuda o cientista a destacar características específicas de uma sociedade para estudá-la melhor. O “Homem Cordial” é exatamente isso: um tipo ideal.


O Homem Cordial: O Coração vs. A Razão

Aqui está o coração da teoria (sem trocadilhos). Cordial vem de cor (coração).

Para Sérgio Buarque, o brasileiro é o “Homem Cordial” porque age movido pela emoção e pela afetividade, e não pela razão ou pela lei.


Por que isso é um problema para a Democracia?

A vida em uma democracia moderna exige impessoalidade.

  • A lei deve valer para todos, conhecidos ou desconhecidos.

  • O funcionário público deve tratar o cidadão com neutralidade.


O Homem Cordial, no entanto, odeia a impessoalidade. Ele não consegue separar o público do privado. Para ele, tudo é pessoal.

  • Ele quer ser tratado de forma especial (“Sabe com quem está falando?”).

  • Ele usa o “jeitinho” para burlar a norma fria da lei.

  • Sua “simpatia” e abraços excessivos são, na verdade, um mecanismo de defesa para tentar transformar relações públicas (chatas e formais) em relações privadas (íntimas e flexíveis).

“O Homem Cordial é culturalmente incapacitado para o exercício da função pública, pois a esfera pública exige a anulação das vontades pessoais.”

Aventureiro vs. Trabalhador

Além do Homem Cordial, Sérgio Buarque usa outros dois tipos ideais para explicar nossa colonização:

  1. O Trabalhador (Colonização Inglesa/Holandesa): Busca a riqueza através do esforço lento, da poupança e da racionalidade (ética protestante). Ele planta a árvore para colher no futuro.

  2. O Aventureiro (Colonização Portuguesa/Brasileira): Guiado pelo instinto e pela aversão ao esforço metódico. O aventureiro quer “colher o fruto sem plantar a árvore”.


Essa mentalidade do “ganho rápido” e do improviso moldou uma sociedade baseada na exploração predatória e na escravidão.


A Democracia como “Mal-Entendido”

Sérgio Buarque conclui com uma visão dura sobre nossa política. Para ele, a democracia no Brasil sempre foi um “lamentável mal-entendido”.


Importamos as leis e formas da Europa, mas o conteúdo continuou arcaico.

  • As Elites: Têm “horror” ao Estado (impostos, leis, fiscalização) porque, herdeiras dos senhores de escravos, acostumaram-se a ser a própria lei dentro de suas fazendas.

  • A Classe Média: Tende a ser reacionária. Com medo de se misturar aos pobres (“os condenados do sistema”), ela imita os preconceitos e o consumo das elites, buscando diferenciar-se a qualquer custo.


Conclusão: O Limoeiro e a Pera

O dilema que Sérgio Buarque nos deixa é o da incompatibilidade. Tentar construir uma democracia racional e impessoal em cima de uma base escravista, patrimonialista e cordial é, segundo ele, como esperar que um limoeiro dê peras.


Superar o “Homem Cordial” não é deixar de ser simpático, mas sim aprender a respeitar a esfera pública e entender que a lei deve estar acima dos nossos afetos pessoais.

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